Os motivos que levam um grupo de pessoas a escrever uma enciclopédia são de diversas ordens. O principal pretexto se volta à formação global dos leitores respeitando, sobretudo, os desdobramentos educacionais que constituem a linha mestra destas publicações. Mas, quando falamos em enciclopédias, lembramos dos ideais de esclarecimento que haviam norteado toda uma época conhecida pelas iluminações e esplendores da modernidade.
Até meados do século XX, estes princípios serviram como programa para diversos projetos educacionais, culturais, jornalísticos, que tinham como horizonte os ideais de emancipação de toda uma coletividade e, não raro, de uma Nação. No Brasil, Monteiro Lobato, à frente da segunda dentição da Revista do Brasil, a partir de 1919, foi um dos exemplos mais complexos e completos da implementação de um amplo projeto político-cultural e pedagógico que procurava encontrar saídas para os debates mais prementes da época e buscava dar conta das explicações sobre os motivos de nosso atraso, assim como apresentava soluções para o futuro. Este modelo de uma revista como enciclopédia seria revivido por várias vezes ao longo do século.
O Folhetim da Folha de S.Paulo, que circulou entre 1977 e 1989, teve uma longa existência, sobretudo quando comparado à grande parte de nossas revistas e suplementos culturais. Em 1977 e 1978, ainda sob a influência do regime militar, o Folhetim surgiu, mas não pôde satisfazer os ideais de combatividade e de compromisso social, que, até aquele momento, faziam parte apenas do horizonte do suplemento. Isto comprova que, para florescer, as enciclopédias nacionais necessitam de liberdade de expressão.
A partir de 1979, o panorama político se modifica e, diante da abertura democrática, o suplemento passa a publicar os principais debates em torno da reconquista da cidadania, ampliando as discussões em todos os quadrantes possíveis. Em 79, começa um período que se prolongará até meados de 1982. Durante estes anos, o suplemento representará um setor da vida nacional, assumindo uma função específica de porta voz da Sociedade Civil.
Desse modo, a década de oitenta se abria sob o dilema da avaliação dos anos setenta. O balanço político, econômico, social e cultural da década de setenta centralizava-se em torno de debates entusiasmados com a possibilidade de se recuperar a cidadania e a democracia, através do sufrágio universal. Os anos oitenta surgiam nas páginas do Folhetim criando uma enorme expectativa em torno de um período de muito trabalho: o modelo da crítica literária cedia lugar às teorias da literatura; o modelo social, econômico e político estavam à espera de novas formulações ou exigiam movimentos de recuperação. Uma nova Constituição a ser escrita, um novo modelo energético para o país, um novo modelo educacional para erradicar o analfabetismo, uma nova proposta cultural mais próxima do povo, um novo modelo econômico mais justo e capaz de distribuir melhor a renda, enfim, discutia-se um “Projeto de Nação” para o Brasil.
É surpreendente a vitalidade que se desprende e que é dispensada aos debates e à aglutinação de especialistas nos diversos campos que o suplemento conseguia mobilizar, contudo, o divórcio entre o que ali estava sendo discutido e a política federal não deixa de causar surpresa diante das alternativas políticas levantadas naquelas páginas.
Portanto, a partir de 79, se colocou em prática o projeto de formar e esclarecer os leitores sobre quais seriam os “melhores” modelos a serem adotados pelo país. Adorno lembra que o conceito de esclarecimento sempre esteve associado tanto à positividade derivada do Iluminismo (quando se apostava mais na noção de progresso), quanto a uma noção ligada aos ideais de liberdade e de superação. Contudo, adorno sublinha que, “muito antes de Turgot e d’Alembert, a forma burguesa do esclarecimento já se perdera em seu aspecto positivista. Ele jamais foi imune à tentação de confundir a liberdade com a busca de autoconservação”.[1] Desse modo, o conceito de esclarecimento seria resultado de forças políticas ligadas à necessidade de conservação de um sistema que consagra o comércio dos bens materiais e, posteriormente, culturais, em detrimento da liberdade. Este deslocamento do conceito de liberdade criaria, mais tarde, o eufemismo atribuído à nossa condição atual de liberdade de consumo.
Por outro lado, o conceito de formação nos remete à idéia hegemônica, até recentemente, de que seria necessário um sistema (social, político, econômico, literário, ou de todos, ao mesmo tempo) para que uma formação histórica pudesse começar a existir. Sendo assim, esclarecimento e formação seriam dois termos complementares e carregados de uma gama de significações que pode oscilar desde a positividade de um projeto que visa ao “esclarecimento popular”, até outra noção que oculta a necessidade de se conservar um sistema político que limita a liberdade de escolha.
Os conceitos e modelos interpretativos começam a circular e também as explicações sobre seus respectivos funcionamentos, criando os termos da enciclopédia nacional.
Para suportar a envergadura deste imenso projeto nacional, a questão da cultura associada a uma Sociedade Civil fortalecida deveria supor um programa capaz de reformular todo o quadro temático dos dilemas que impediam o ingresso do país ao paraíso do Primeiro Mundo. Três flancos se abrem para a realização deste sonho: o jornal como veículo unificador entre povo, Nação e o que havia de mais refinado na inteligência acadêmica. Por último, mas não menos importante, deve-se ressaltar que, possivelmente, este projeto aglutinador era parte de um planejamento administrativo que tinha a ambição de colocar a Folha de S.Paulo entre os maiores jornais do país, senão o maior. Sendo assim, o saber, o público e o meio de comunicação (com a atuação de seus bravos soldados, os jornalistas) uniram-se para a confecção da “nossa enciclopédia nacional”.
Ao colocar em prática o Projeto Folhetim, foi necessário evidenciar o papel de proa que a educação deveria assumir:
O Folhetim de 21 de outubro de 1979, dedicado exclusivamente à educação, concluía que as mudanças impostas nas políticas educacionais, depois do golpe de 64, haviam mudado para pior o perfil dos professores e alunos. O processo de alfabetização estava à beira de um colapso e o MEC, cujo autoritarismo tinha afastado de sua direção os educadores substituindo-os por coronéis, se agarrava a programas, como o Mobral, que se desmantelavam pela falta de vontade política de encará-los seriamente. Neste número do suplemento, a educadora Maria Nilda Mascellani admitia que o descaso do Estado em relação à educação pública fortalecia a rede de escolas privadas. A ordem que impera dentro do sistema educacional nacional, segundo a educadora, é a de não pensar: “estamos num processo de burrificação crescente”.[2]
Diante da vacância de um Governo que não cumpria a sua função de aparelhar a rede de ensino, condenando a um segundo plano (em virtude da censura) a formação crítica de professores e alunos, o Folhetim encontrava uma enorme lacuna, que definiria sua atuação a partir de 1979. Obviamente, o suplemento não se tornava objeto de estudos em salas de aula porque destinava uma parte de seus textos às discussões educacionais; a fórmula que nutria esta proximidade entre Folhetim e ensino residia no formato das informações. Evidentemente que os textos dos especialistas de todos os quadrantes teóricos se apresentavam ao leitor atravessados pelas transcrições (das falas e das entrevistas) dos jornalistas e redatores do suplemento. Esta intermediação do jornalista, que caracteriza a reportagem, relativizava as intervenções dos convidados, atuando como um limitador entre especialista e leitor. O jornalista funciona, neste caso, como uma válvula textual, que controla o fluxo, adquirindo uma capacidade extra de censor prévio e de consciência do texto, ele retém informações e agrega explicações, ou, de outro modo, o jornalista assume a função legislativa sobre o que deve ou não ser publicado e, conseqüentemente, lido.
Utilizando-se de estratégias mercadológicas residuais da fase anterior (do Folhetim de variedades – 77-78), portanto, depois de assegurados os primeiros leitores, a segunda fase procurou ampliar este universo. O novo filão do mercado se encontrava atrás dos bancos escolares. Se durante a década de setenta — como parte do milagre econômico —, a rede pública de ensino havia crescido de forma desproporcional ao ritmo em que a universidade formava mão-de-obra qualificada, disponibilizando material humano qualificado para operar nestas escolas de maneira apropriada, a ausência na implementação de uma política de médio prazo, que substituísse o vale tudo e a improvisação do ensino, significava a falência do sistema educacional, sempre representado pelo governo como a espinha dorsal do desenvolvimento econômico.
Vacância de governo, falência da política educacional e ausência de formação especializada forneciam a brecha pela qual o suplemento da Folha pretendia atuar. A agilidade do jornal auxiliada pela mediação do jornalista, que fornecia o tom conciliatório entre especialista e público, criava uma legislação básica que norteou a formação do perfil da segunda fase do Folhetim. O intelectual moderno, neste caso, o jornalista-educador, se posicionava no centro da cena cultural da década de setenta: diante da representação e da posição de controle sobre a cultura, o jornalista se convertia no principal aliado dos professores. Para chegar até as mãos dos alunos como uma fração que integrava uma totalidade, o Folhetim se apresentava em fascículos que, parodiando a inerte enciclopédia burguesa presa às salas-de-estar e aos verbetes genéricos e internacionais, construíam a enciclopédia nacional-popular da Folha. Este formato era preciso e justo para cumprir a função de formação dos leitores. Ou seja, não se tratava de mais uma coleção das amenidades burguesas da virada do século passado, mas de um conjunto de “verbetes” ativamente politizados, que refletiam a atualidade dos temas com a capacidade de fornecer manancial crítico aos professores e alunos. Esta função esclarecedora e educativa do suplemento lançava-o em direção a um teorema, pois, ao se cumprir tais ideais se emancipava o leitor das interpretações oficiais, mas, ao mesmo tempo, condicionava-o ou condenava-o a uma linguagem que, já naquela época, beirava ao simplismo das interpretações maniqueístas.